Jessica Fernandes abraçou e beijou a mãe antes de ela ser internada – e morrer vítima do coronavírus há cerca de 20 dias. “Não posso mentir, fiz isso, senti que era uma despedida.” Depois, foi visitar o pai. Ambos se contaminaram. Ele também foi parar no hospital, mas sobreviveu. A desempregada, de 27 anos, é uma das primeiras pacientes que aceitou morar provisoriamente numa escola adaptada de Paraisópolis para não passar o vírus a mais ninguém.

Estado conversou por videoconferência com o grupo que inaugurou, na semana passada, o espaço na escola estadual que fica na entrada da favela em São Paulo. Como é um centro de isolamento, jornalistas não podem entrar no local. O pedreiro Adeildo Barbosa da Silva, de 46 anos, virou cameraman da reportagem. Com seu celular, ele mostrou as salas de aula transformadas em dormitórios, as camas hospitalares na frente da lousa, agora sem função. “Tudo é novinho e bem organizado. A comida é muito boa também, os cozinheiros estão de parabéns”, comentou.

O Wi-Fi gratuito funciona bem. Foi uma das providências dos organizadores do projeto para que os residentes pudessem manter contato com o mundo de fora, ver filmes, se entreter. Visitas são proibidas, como em qualquer hospital com pacientes da covid-19.

Adeildo encontra Jessica no corredor, sentada, sozinha. Ela diz que tem sido um momento de reflexão depois de sua vida virar do avesso por causa “dessa doença que ninguém conhecia”. “É muita dor esse vírus pegar a pessoa que você mais ama”, diz, sobre a mãe.

“Dá muito medo. Minha casa tem um cômodo só, como vou me curar lá? Eu ia acabar saindo, não ia ficar quieta”, continua a moça, usando o argumento que fez o projeto surgir na comunidade.

Jessica está na Escola Estadual Etelvina de Goes Marcucci, que foi inaugurada na semana passada como o primeiro Centro de Isolamento para Covid-19. Apenas moradores de Paraisópolis podem usar o serviço. Uma outra escola da comunidade também já está pronta para receber pacientes leves do coronavírus e uma terceira, no Jardim Ângela, começa a ser reformada, em parceria com a Fundação Itaú. O programa inclui ainda uma quarta escola em local ainda não definido.

“A ideia é menos de tratamento e mais de tirar as pessoas de circulação, para que elas deixem de ser agentes contaminantes”, explica a coordenadora do projeto, da ONG Parceiros da Educação, Ana Leite. Pacientes de alto risco ou com a doença não controlada não podem ser direcionados para lá.

Cama própria. Cada unidade pode receber até 510 pessoas Foto: Caio Caciporé

Nova casa

Mais de 40 mil pessoas vivem na favela de Paraisópolis, na zona sul de São Paulo. Quando a doença começou a se espalhar pelo local, o líder comunitário Gilson Rodrigues pediu ajuda para alugar uma casa no Morumbi, a fim de instalar pacientes que não tinham necessidade de internação, mas que acabariam infectando muita gente se ficassem circulando ou isolados em suas moradias.

A quantidade de pessoas em espaços pequenos e a pobreza são grandes barreiras tanto para o isolamento quanto para a higiene, já que há compartilhamento de banheiro, pia, cama e utensílios. Mais de 1 milhão de pessoas moram em locais superlotados na capital, com mais de três familiares por dormitório.

A ONG, então, decidiu que a melhor opção seria transformar escolas, desocupadas pela suspensão das aulas, em casas para essas pessoas. Procurada, a Secretaria Estadual da Educação cedeu as unidades. E, em poucos dias, a ONG arrecadou R$ 3 milhões com doadores físicos, que pediram para seus nomes não serem divulgados.

Até sexta-feira, a escola abrigava os primeiros 25 residentes. As duas unidades de Paraisópolis podem receber até 510 pessoas. Jessica acha que algumas pessoas não querem ir para lá porque pensam que se trata de uma “prisão”. Há horário para comer e tomar banho, mas os residentes ficam livres o dia todo para fazer o que quiserem. Ana acredita que é apenas uma questão de tempo e de a informação chegar aos moradores. Os organizadores trabalham com a possibilidade de o espaço estar cheio em até dez dias.

Pingue-pongue

Adeildo mostra com seu celular as mesas de pingue-pongue, pebolim e para jogar cartas, compradas para a escola. Há ainda duas salas de TV e um refeitório. Também foram levados computadores, impressoras, equipamentos novos para cozinha industrial.

Tudo vai ficar para a escola estadual quando a pandemia passar e as aulas voltarem. O governo do Estado fala em uma “possibilidade” de que os alunos retornem em fim de julho ou agosto. Independentemente da data, o espaço vai passar por uma desinfecção antes.

O pedreiro Adeildo é companheiro de quarto do açougueiro Jose Luiz Nascimento, de 32 anos. “Eu não acreditava que existia esse coronavírus, vivia na rua, dizia que não era bode para usar máscara”, conta. “Acabei pegando e passando para meio mundo”, lamenta, explicando porque resolveu ir passar um tempo no centro de isolamento. Ele conta ainda que, quando descobriu a doença, ligou para os parentes em Pernambuco e todos choraram sem parar. “Quando eu ficar bom, vou voltar pra minha cidade, já decidi.” O açougueiro mora em Paraisópolis há dez anos.

Quem vai para o centro de isolamento fica, em média, 15 dias. A ideia é que uma das escolas de Paraisópolis abrigue só mulheres e outra, homens. Mas, como ainda não está cheia, eles estão separados por andares apenas. Os pacientes são apresentados a essa opção quando procuram a UBS ou a AMA de Paraisópolis. Os suspeitos de ter a doença passam pelo teste, que é realizado pelo Hospital Albert Einstein. Quando o resultado é positivo, são orientados a trocar a casa na favela pela escola.

O Einstein foi também responsável por montar o protocolo de atendimento no centro. Não há médicos no local. Os cuidadores, selecionados também em Paraisópolis e que recebem salário, medem saturação e temperatura diariamente. Eles repassam informações aos médicos da UBS e da AMA, que monitoram os pacientes por telefone ou telemedicina. Uma ambulância fica disponível 24 horas para levá-los ao hospital em caso de agravamento do quadro. Há também atendimento psicológico para quem requisitar.

“Do jeito que estava em casa, achava que era melhor partir já”, diz o marceneiro Sebastião da Silva, de 80 anos, sentado na cama perto de Adeildo. Ele afirma que, agora que foi para o centro de isolamento, se sente bem porque está sendo cuidado e tem um lugar gostoso para dormir. Os residentes se derretem em elogios às cuidadoras, que andam equipadas com máscara, avental, touca e a face shield, a proteção para o rosto todo.

Jessica diz que fica feliz em ver “gente disposta a largar a própria vida para cuidar da gente”. “Vou ter saudade daqui quando for embora. Agora nós somos todos uma família para combater esse vírus.”

Matéria do Estadão, publicada em 11 de maio de 2020

Escrita por: Renata Cafardo, O Estado de S.Paulo

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